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“Não deixem a gente morrer”: moradora do Bom Parto cobra direitos e apoio às vítimas do afundamento em Maceió

“Não deixem a gente morrer, pelo amor de Deus!” O apelo foi feito por Glauciane Alves, moradora do bairro do Bom Parto há 38 anos, durante uma audiência pública realizada nesta quinta-feira (5), na Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE), em Maceió. A comunidade é uma das áreas atingidas pelo afundamento do solo associado à mineração de sal-gema da Braskem.

Em um relato marcado pela emoção, Glauciane afirmou que chegou a tentar tirar a própria vida diante dos impactos provocados pelo desastre. Ela cobrou atendimento voltado à saúde emocional dos moradores afetados e pediu que as autoridades assegurem os direitos jurídicos das vítimas, que convivem há anos com perdas materiais, deslocamentos e incertezas sobre o futuro.

A audiência reuniu moradores das comunidades atingidas, representantes da Igreja Católica, do Ministério Público e das defensorias públicas. O encontro integrou a programação da Caravana pela Ecologia Integral, iniciativa que levou a Maceió bispos, agentes de pastorais sociais, organizações da sociedade civil e lideranças comunitárias para ouvir as reivindicações das populações afetadas.

Durante a sessão, os participantes também questionaram a atuação dos órgãos públicos responsáveis pelo acompanhamento do caso. O promotor de Justiça Jorge Dórea afirmou que a prioridade inicial foi preservar a vida dos moradores que estavam em áreas sujeitas ao risco de colapso. Segundo ele, desde então foram firmados acordos e ajuizadas ações, mas parte das propostas apresentadas pelas comunidades não avançou no Judiciário.

“Passados quase oito anos, continuamos nessa luta”, declarou o representante do Ministério Público Estadual. Dórea também disse que algumas reivindicações não foram concretizadas por falta de acolhimento judicial às demandas apresentadas pelos moradores.

A participação direta das pessoas atingidas nas decisões sobre reparação e uso dos territórios foi defendida por dom Vicente de Paula, representante da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e integrante da Comissão Especial para Ecologia Integral e Mineração. Para ele, os próprios atingidos devem definir quais direitos precisam ser reconhecidos e exigir medidas da empresa responsável pela atividade minerária.

Proposta pelos deputados Ronaldo Medeiros (PT) e Carla Dantas (MDB), a audiência discutiu os efeitos humanos, sociais, econômicos e ambientais do desastre. Medeiros afirmou que o debate não deve se limitar à dimensão ambiental, mas considerar também a destruição de vínculos comunitários, o sofrimento psicológico e as dificuldades enfrentadas pelas famílias que deixaram suas casas.

O afundamento do solo atingiu bairros como Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol. De acordo com a Prefeitura de Maceió, uma nova campanha de vistorias iniciada em outubro prevê a avaliação de aproximadamente 2.093 imóveis no entorno do Mapa de Linhas de Ações Prioritárias. Técnicos analisam rachaduras, fissuras, deformações e outros sinais estruturais, cruzando as informações com dados de monitoramento instrumental e imagens de satélite.

A mobilização ocorre enquanto órgãos públicos discutem o futuro das áreas afetadas. A Câmara Municipal de Maceió marcou para segunda-feira (9) uma reunião sobre a atualização do Plano Diretor, com a previsão de participação de representantes dos moradores, Ministérios Públicos, órgãos ambientais e da Braskem. Entre as propostas em debate estão o monitoramento permanente do território, a prevenção de novas ocupações e a criação de um parque memorial.