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Menino autista que vendia bombons em Fortaleza é hostilizado após declarar apoio a Lula

Um menino autista que vendia bombons para ajudar no sustento da família foi alvo de hostilização por motivação política em Fortaleza, no Ceará. O episódio ocorreu na região da Avenida Beira-Mar e ganhou grande repercussão nas redes sociais depois que um vídeo foi publicado por uma influenciadora digital identificada como Valéria Diniz.

Nas imagens, a mulher aborda Matheus enquanto ele oferece os doces a pessoas que estavam em uma mesa. Durante a conversa, ela pergunta em quem o menino votaria ou havia votado. Ao ouvir a resposta “Lula”, a influenciadora pede que ele faça o gesto com a letra “L”, associado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Depois que a criança atende ao pedido, a mulher se recusa a comprar os bombons e passa a fazer comentários hostis. Entre as frases atribuídas a ela estão “vai passar fome” e uma orientação para que o garoto procurasse a mãe e mandasse que ela também fizesse o “L”. Pessoas que acompanhavam a cena aparecem rindo, enquanto Matheus permanece diante da mesa com os produtos à venda.

A publicação provocou indignação entre internautas, que classificaram a atitude como humilhação, preconceito e violência psicológica contra uma criança. O caso também levantou críticas sobre a exposição de menores nas redes sociais e sobre o uso de uma situação de vulnerabilidade econômica para produzir conteúdo de caráter político.

Segundo informações divulgadas sobre o caso, Matheus é autista, perdeu a mãe e mora com a avó, Inês de Maria do Nascimento. A criança vende bombons na orla de Fortaleza para contribuir com as despesas da casa. A situação familiar aumentou a comoção em torno do episódio e levou usuários das redes sociais a buscar formas de oferecer apoio direto ao menino e à avó.

Após a repercussão, o perfil originalmente associado à influenciadora ficou indisponível. Em outra conta, Valéria publicou uma mensagem de desculpas, afirmando que não pretendia transmitir a imagem mostrada no vídeo e pedindo perdão à criança e à família. A retratação, no entanto, não impediu a continuidade das críticas e dos pedidos para que o caso fosse apurado.

O Estatuto da Criança e do Adolescente determina, no artigo 18, que é dever de todos proteger crianças e adolescentes de tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor. Já o artigo 232 prevê detenção de seis meses a dois anos para quem submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou constrangimento. A eventual aplicação desse dispositivo depende da análise das circunstâncias e da relação entre os envolvidos.

A repercussão também deu origem a uma rede de solidariedade. Internautas e criadores de conteúdo de Fortaleza passaram a mobilizar doações e a procurar a família para oferecer ajuda financeira, alimentos e suporte emocional. A intenção manifestada por apoiadores é transformar a exposição sofrida por Matheus em uma ação concreta de amparo, garantindo melhores condições para ele e para a avó.

O episódio reacendeu o debate sobre respeito à infância, capacitismo e responsabilidade na produção de vídeos para redes sociais. Especialistas e entidades ligadas à defesa dos direitos da criança reforçam que menores em situação de vulnerabilidade não devem ser ridicularizados, expostos ou usados como instrumento de disputa política.