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Lula ganhou 10 milhões de votos em 20 dias? O que os números da eleição mostram

Luiz Inácio Lula da Silva ampliou sua votação em pouco mais de 10 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais de 2026. A comparação é matematicamente correta, mas a frase “Lula ganhou 10 milhões de votos em 20 dias” precisa ser interpretada com cuidado: o resultado não significa que 10 milhões de eleitores que não votaram nele passaram a apoiá-lo necessariamente durante a campanha.

No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Lula recebeu aproximadamente 53,9 milhões de votos e terminou na segunda colocação, atrás de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, em 25 de outubro, o petista alcançou cerca de 64,2 milhões de votos e venceu a disputa. A diferença entre os dois resultados ficou em torno de 10,3 milhões de votos, em um intervalo de 21 dias corridos entre as datas das votações — ou 20 dias entre o dia seguinte ao primeiro turno e a véspera da segunda votação.

A expressão “ganhou votos”, porém, descreve apenas a variação da votação nominal de Lula. Ela não permite identificar, sozinha, a origem de cada voto adicional. No primeiro turno, outros dez candidatos disputaram a Presidência. Entre eles estavam nomes que receberam milhões de votos, como Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury. Com a eliminação dessas candidaturas, parte dos eleitores migrou para Lula, parte escolheu Flávio Bolsonaro e outra parcela pode ter votado em branco, nulo ou deixado de comparecer.

Também houve mudança no comparecimento às urnas. A abstenção, que havia ficado próxima de 21% no primeiro turno, caiu para menos de 20% no segundo, segundo os dados divulgados durante a totalização. Isso significa que milhões de pessoas que não votaram em 4 de outubro compareceram em 25 de outubro. Ainda assim, não é possível afirmar que todos esses eleitores tenham escolhido Lula. A redução da abstenção beneficiou os dois candidatos, embora a distribuição final dos votos tenha sido favorável ao petista.

Outro ponto importante é que o segundo turno tem dinâmica diferente do primeiro. Na primeira etapa, o eleitor escolhe entre vários candidatos e pode votar por preferência, rejeição ou estratégia. Na fase final, a disputa se concentra em apenas duas opções, o que estimula o chamado voto útil e reorganiza alianças políticas. Apoios de candidatos derrotados, campanhas de mobilização e a tentativa de atrair eleitores indecisos também influenciam o resultado.

Os números confirmam, portanto, uma forte recuperação de Lula entre as duas votações, suficiente para transformar uma desvantagem de cerca de 2,2 milhões de votos no primeiro turno em uma vitória no segundo. Mas a leitura mais precisa é que Lula recebeu aproximadamente 10,3 milhões de votos a mais na segunda votação. Não há base estatística, apenas pela comparação dos resultados, para dizer que ele “conquistou” individualmente 10 milhões de novos eleitores ou que todos os votos vieram de candidatos derrotados e abstencionistas.