A atriz Nicette Bruno deixou um legado inconfundível na dramaturgia brasileira e sua partida, em dezembro de 2020, ainda ecoa com intensidade entre familiares, colegas e o público que acompanhou sua longa trajetória. A filha Beth Goulart, também atriz, tem compartilhado reflexões sinceras sobre a maneira como a mãe se foi, destacando a rapidez com que a doença interrompeu uma vida que, até poucos dias antes, seguia com vitalidade e presença.
Nicette Bruno faleceu aos 87 anos em decorrência de complicações da Covid-19. O período entre o diagnóstico e o desfecho foi curto: apenas 21 dias. Segundo Beth, a mãe estava bem, ativa e envolvida com a rotina familiar quando os primeiros sinais da infecção apareceram. A frase que a filha tem repetido em entrevistas resume o sentimento de abruptidão: “Estava ótima e foi arrancada de nós”. A descrição transmite o impacto de uma perda que não deu tempo para longos preparativos emocionais ou para o acompanhamento cotidiano que muitas famílias experimentam em processos de enfermidade prolongada.
A internação ocorreu no final de novembro daquele ano. Em pouco tempo o quadro se agravou, exigindo cuidados intensivos. A pandemia, então em um momento crítico, impôs restrições severas de visitação. Beth e os demais filhos enfrentaram a impossibilidade de manter o contato físico constante, de segurar a mão da mãe ou de oferecer o conforto de um abraço. Essa distância forçada transformou a experiência do luto. A atriz relata que precisou recorrer a formas de conexão que ultrapassavam a presença física, apoiando-se na fé e na energia que a família sempre cultivou.
O contraste com a morte do pai, o também ator Paulo Goulart, ocorrida seis anos antes, torna-se inevitável nas narrativas de Beth. Paulo enfrentou um câncer ao longo de quatro anos. A família pôde acompanhar de perto o processo, estar ao lado dele nos últimos momentos e realizar uma despedida coletiva. Houve tempo para conversas, para o cuidado diário e para a elaboração gradual da perda. Com Nicette, a velocidade e o isolamento hospitalar geraram um tipo diferente de dor. A sensação de orfandade chegou de maneira súbita, sem a mesma possibilidade de presença e de rituais de despedida.
Beth tem enfatizado que a mãe era uma mulher de energia contagiante, dedicada ao trabalho e à família até o fim. Nicette construiu uma carreira de mais de sete décadas, iniciada ainda na infância no rádio e consolidada no teatro e na televisão. Interpretações marcantes em novelas e espetáculos a tornaram referência de talento e de profissionalismo. O casamento com Paulo Goulart, que durou seis décadas, formou uma parceria artística e afetiva conhecida pelo público. Juntos, criaram três filhos que seguiram a mesma vocação: Beth, Bárbara Bruno e Paulo Goulart Filho.
A filha do meio tem transformado a experiência do luto em reflexão e em produção artística. Ela fala sobre a necessidade de ressignificar a ausência, de honrar a memória da mãe através da continuidade da vida e do trabalho. O fato de Nicette ter partido em apenas 21 dias após o diagnóstico reforça, em suas palavras, a fragilidade da existência e a importância de valorizar cada momento compartilhado. Ao mesmo tempo, a comparação com o processo mais longo vivido com o pai permite a Beth compreender as múltiplas faces do luto: aquele que se desenrola lentamente e aquele que irrompe de forma inesperada.
A família Goulart sempre manteve uma relação estreita com a espiritualidade, elemento que ajudou a enfrentar as perdas. Beth menciona que a fé ofereceu ferramentas para atravessar o período mais difícil, permitindo que a saudade convivesse com a gratidão pelas décadas de convivência. A imagem de Nicette como mãe, parceira de cena e figura pública permanece viva nas lembranças dos que a conheceram de perto e daqueles que a acompanharam pelas telas e pelos palcos.
O relato da filha contribui para um entendimento mais humano da partida de Nicette Bruno. Não se trata apenas de registrar uma data ou uma causa médica, mas de reconhecer o impacto emocional de uma ausência que chegou cedo demais para quem a amava. Em 21 dias, uma existência plena foi interrompida. A frase de Beth resume a dor e, ao mesmo tempo, o carinho: a mãe estava ótima e, de repente, foi arrancada do convívio familiar. Essa honestidade emocional, aliada ao respeito pela trajetória da atriz, ajuda a preservar a memória de uma artista que dedicou a vida à arte e ao afeto.
A história de Nicette Bruno continua a inspirar. Sua passagem rápida reforça a necessidade de cuidado e de valorização do tempo presente. Para Beth Goulart e para todos que a cercavam, a saudade permanece, mas também permanece a certeza de que o legado artístico e familiar da atriz transcende a separação física. O luto, diferente daquele vivido seis anos antes, encontra seu caminho na memória e na continuação da vida.