Política

Neste sábado, Eduardo Bolsonaro acaba de ser p… Ver mais

Eduardo Bolsonaro, deputado federal pelo PL de São Paulo e uma das vozes mais combativas da oposição bolsonarista, voltou a incendiar o debate político nesta semana ao disparar críticas contundentes contra o relator do projeto de lei da anistia na Câmara dos Deputados. O alvo de sua fúria foi Paulinho da Força, do Solidariedade-SP, recém-indicado para relatar o texto que discute o perdão aos envolvidos nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. Em postagens nas redes sociais, Eduardo não mediu palavras: chamou o acordo proposto pelo relator de “indecoroso e infame” e alertou para o risco de Paulinho ser visto como um colaborador do que ele descreve como “regime de exceção” liderado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

O cerne da controvérsia gira em torno da amplitude da anistia. Para Eduardo e seus aliados mais radicais, só serve uma anistia ampla, geral e irrestrita, capaz de absolver integralmente os condenados, incluindo o pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro, sentenciado recentemente a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Qualquer concessão menor, como a redução de penas ou a modulação da dosimetria – apelidada agora de “PL da Dosimetria” pelos articuladores do Centrão –, é vista como uma traição. “A anistia ampla, geral e irrestrita não está sob negociação”, escreveu Eduardo, ecoando o grito de guerra de uma base que se sente traída por negociações nos bastidores. Ele acusou diretamente Paulinho de ter sido “posto pelo Moraes para enterrar” a proposta original, insinuando uma manobra orquestrada para diluir o perdão em algo mais palatável ao STF e à esquerda.

Mas o tom de Eduardo subiu ainda mais quando ele invocou as sanções internacionais, um trunfo que o bolsonarismo tem brandido como arma diplomática desde que os Estados Unidos aplicaram a Lei Magnitsky contra o ministro Moraes em julho deste ano, sob a administração Trump. “Um conselho de amigo: muito cuidado para você não acabar sendo visto como um colaborador do regime de exceção”, alertou o deputado, antes de completar com uma ameaça velada: “Pois, assim como está expresso na lei, todo colaborador de um sancionado por violações de direitos humanos é passível das mesmas sanções”. A referência é clara – Eduardo, que tem se movimentado nos corredores de Washington para pressionar por mais punições americanas contra autoridades brasileiras, especialmente do Judiciário, sugere que Paulinho poderia ser o próximo na lista negra dos EUA. Essa retórica não é nova: o PL já expressa receio de que novas sanções contaminem as negociações, transformando o que poderia ser um pacto republicano em um campo minado geopolítico.

Do outro lado, Paulinho da Força rebateu com pragmatismo, em entrevistas que circularam amplamente. Ele admitiu que a anistia ampla é um “sonho dos bolsonaristas”, mas defendeu que ela colide de frente com a Constituição, como já sinalizado pelo STF. Em vez de um perdão total, o relator aposta em um texto que beneficie não só Bolsonaro, mas todos os condenados por crimes específicos, reduzindo tempos de prisão e evitando um confronto direto com o Supremo. “Espero que Eduardo ponha a mão na consciência; ele já fez muita besteira”, disparou Paulinho, em tom de exaustão com as radicalizações do colega. A estratégia ganhou contornos mais concretos em uma reunião recente em São Paulo, com a participação virtual do presidente da Câmara, Hugo Motta, e figuras como o ex-presidente Michel Temer e o deputado Aécio Neves. Ali, o projeto foi rebatizado de “PL da Dosimetria”, vendido como um “pacto republicano” para pacificar o país, sem chocar o Congresso contra o Judiciário.

Essa troca de farpas expõe as fissuras profundas no campo conservador brasileiro. Enquanto Flávio Bolsonaro, irmão de Eduardo e senador pelo PL-RJ, opta por um caminho mais dialogado – anunciando reuniões com Paulinho para ouvir “um lado diferente do STF” –, o deputado paulista representa a ala intransigente, disposta a escalar o embate para além das fronteiras nacionais. Eduardo, inclusive, segue nos EUA, articulando com aliados de Trump por retaliações que poderiam mirar não só Moraes, mas até mesmo legisladores como Paulinho se eles se alinharem ao que ele chama de “esquerda”. O risco é real: sanções americanas no meio da tramitação poderiam paralisar o texto, beneficiando indiretamente o governo Lula ao prolongar o limbo jurídico dos bolsonaristas.

No fim das contas, o embate entre Eduardo e o relator não é só sobre penas ou perdões; é sobre o controle da narrativa oposicionista. Paulinho e o Centrão buscam uma saída moderada que evite o isolamento político, enquanto Eduardo prefere o confronto total, apostando que a pressão externa – via sanções – force uma vitória simbólica. Com a urgência do projeto já aprovada na Câmara, a votação pode ocorrer na próxima semana, mas o veneno das críticas de Eduardo garante que nada será resolvido sem mais faíscas. O Brasil, mais uma vez, assiste a uma briga familiar que ameaça engolir as instituições, onde o perdão vira pretexto para vinganças maiores. Se Paulinho ceder à dosimetria light, arrisca sanções internacionais; se resistir, pode ver o PL implodir em divisões internas. Eduardo, por sua vez, joga alto: ou a anistia irrestrita, ou o caos diplomático. E assim, o fantasma do 8 de janeiro continua a assombrar Brasília, com filhos de ex-presidentes ditando o ritmo de uma nação ainda em feridas abertas.