Famosos

Caso Hytalo Santos: era isso que os pais das crianças ganhavam para deixar seus filhos com influenciador

O caso do influenciador Hytalo Santos, preso em agosto de 2025 em Carapicuíba, na Grande São Paulo, trouxe à tona uma discussão alarmante sobre a exploração de crianças e adolescentes nas redes sociais. Hytalo, um paraibano de 28 anos, ficou conhecido por produzir conteúdos em formato de “reality show”, exibindo a rotina de jovens que viviam em sua casa, a quem chamava de “crias” ou “filhos”. Esses vídeos, publicados em plataformas como YouTube, TikTok e Instagram, acumulavam milhões de visualizações e geravam lucros significativos, mas as investigações revelaram um lado sombrio por trás dessa popularidade.

As denúncias contra Hytalo começaram a ganhar força em 2024, após relatos de vizinhos sobre festas com bebidas alcoólicas e cenas de conotação sensual envolvendo menores em sua residência. O caso explodiu quando o youtuber Felca, com mais de 4 milhões de inscritos, publicou um vídeo apontando a “adultização” de crianças e adolescentes nos conteúdos de Hytalo. Ele destacou situações em que jovens, alguns com apenas 12 anos, eram expostos a perguntas inadequadas, danças sensuais e contextos que sugeriam exploração para engajamento e lucro. O vídeo de Felca, que ultrapassou 40 milhões de visualizações, foi um divisor de águas, levando o Ministério Público da Paraíba (MPPB) a intensificar as investigações.

Hytalo e seu marido, Israel Nata Vicente, foram presos em uma operação conjunta que envolveu o MPPB, o Ministério Público do Trabalho (MPT), a Polícia Civil da Paraíba e de São Paulo, além da Polícia Rodoviária Federal. As acusações são graves: tráfico humano, exploração sexual infantil e trabalho infantil artístico irregular. A Justiça da Paraíba determinou a suspensão de suas redes sociais, a desmonetização de seus conteúdos e a proibição de contato com os menores envolvidos. Durante a prisão, a polícia apreendeu celulares e um veículo, e há indícios de que o casal planejava fugir do país.

Um dos aspectos mais chocantes do caso é o envolvimento dos pais das crianças e adolescentes. O MPPB ampliou as investigações para apurar a conduta dos responsáveis, que, segundo as autoridades, podem ter se omitido na proteção de seus filhos. Hytalo presenteava as famílias com iPhones, pagava contas como aluguel e mensalidades escolares, e oferecia benefícios financeiros, o que teria incentivado os pais a permitirem que seus filhos participassem dos vídeos. Essa troca de favores levanta questionamentos éticos e legais, já que a omissão dos responsáveis pode configurar crimes como negligência, maus-tratos ou até conivência com a exploração, segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

A especialista em direito digital Juliana Nóbrega explica que a exposição de menores em conteúdos sexualizados ou vexatórios nas redes sociais pode acarretar penas severas, como estupro de vulnerável, corrupção de menores e produção de pornografia infantil, com reclusões que variam de 1 a 15 anos. Mesmo com a autorização dos pais, essas práticas não deixam de ser ilícitas, especialmente quando envolvem exploração com fins lucrativos. A advogada Lorrayne Alves reforça que o ECA impõe aos responsáveis o dever de proteger os menores, e a omissão pode levar à responsabilização criminal.

O caso também escancara a fragilidade das plataformas digitais no combate à exploração infantil. Apesar de o Instagram de Hytalo, com mais de 17 milhões de seguidores, ter sido desativado, a demora na remoção de conteúdos prejudiciais evidencia a necessidade de regulamentações mais rígidas. As autoridades apontam que o alcance global das redes sociais amplifica o dano às vítimas, tornando os efeitos da exposição praticamente irreversíveis.

Hytalo nega as acusações, afirmando que sempre agiu dentro da lei e com autorização dos pais. Sua defesa alega que a prisão foi uma medida extrema e promete recorrer, mas as evidências coletadas, incluindo mais de 50 vídeos analisados e depoimentos de adolescentes, sugerem um padrão de comportamento que priorizava o lucro em detrimento da dignidade dos menores. A Justiça de São Paulo manteve a prisão preventiva do casal após audiência de custódia, reforçando a gravidade das suspeitas.

O caso Hytalo Santos é um alerta sobre os perigos da busca desenfreada por engajamento nas redes sociais. A exploração de crianças e adolescentes, muitas vezes com a conivência de suas próprias famílias, revela uma realidade preocupante em que a promessa de benefícios materiais pode ofuscar o dever de proteção. Enquanto as investigações seguem, a sociedade é chamada a refletir sobre a responsabilidade coletiva em garantir um ambiente digital seguro para os mais vulneráveis.