A salvação de Bolsonaro? Após grave denúncia, Moraes fica sabendo q… Ler mais

Eduardo Tagliaferro, ex-assessor do ministro Alexandre de Moraes no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tornou-se uma figura central em um embate político e jurídico que agita o cenário brasileiro. Antes um aliado próximo de Moraes, Tagliaferro rompeu com o ministro e passou a fazer graves acusações contra ele, alinhando-se ao bolsonarismo e buscando apoio internacional para suas denúncias. Atualmente vivendo na Itália, ele enviou aos Estados Unidos um conjunto de documentos que, segundo ele, comprovam irregularidades cometidas por Moraes, incluindo a suposta manipulação de datas em relatórios para justificar operações da Polícia Federal contra aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. A questão que paira é: até que ponto essas denúncias podem impactar o julgamento de Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) por sua suposta tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022?
Tagliaferro, que já foi chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação do TSE, afirma que Moraes utilizava a estrutura do tribunal de forma irregular para embasar inquéritos no STF, especialmente contra bolsonaristas. Ele apresentou ao Senado, em uma audiência conduzida por Flávio Bolsonaro, documentos que alegam, por exemplo, que um relatório usado para justificar buscas contra empresários em 2022 foi produzido após a operação, com datas alteradas para sugerir que a investigação já existia previamente. Essas acusações, amplificadas por aliados de Bolsonaro, ganharam tração em redes sociais e canais alinhados ao ex-presidente, que veem em Tagliaferro uma peça-chave para questionar a legitimidade das ações de Moraes.
O envio de materiais aos EUA, segundo Tagliaferro, foi feito com o objetivo de pressionar por sanções contra Moraes, em um momento em que o ministro já enfrenta críticas internacionais, como a aplicação da Lei Magnitsky pelo governo norte-americano, que o acusou de abusos em prisões preventivas e restrições à liberdade de expressão. Tagliaferro também mencionou conversas com o Departamento de Estado americano e o compartilhamento de informações com o Parlamento Europeu, sugerindo que mais pessoas ligadas a Moraes poderiam ser alvo de medidas internacionais. Para os bolsonaristas, essas movimentações são uma tentativa de enfraquecer o STF e, por consequência, o processo contra Bolsonaro, que pode resultar em até 43 anos de prisão caso condenado.
No entanto, a relevância prática das denúncias de Tagliaferro é incerta. Moraes rebateu as acusações, afirmando que todos os procedimentos foram regulares, documentados e realizados dentro das normas, com a participação da Procuradoria-Geral da República (PGR). Além disso, Tagliaferro enfrenta sérias acusações no Brasil, incluindo violação de sigilo funcional, obstrução de justiça e até tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, o que compromete sua credibilidade perante as instituições judiciais. Sua exoneração do TSE em 2023, após um caso de violência doméstica, e a denúncia do Ministério Público de São Paulo por ajudar um juiz a ocultar provas em outro caso também pesam contra ele. A PGR, liderada por Paulo Gonet, considera que Tagliaferro agiu para desestabilizar o sistema eleitoral e favorecer grupos ligados a desinformação, o que pode limitar o impacto de suas alegações.
Para Bolsonaro, as denúncias de Tagliaferro são um trunfo político, mas não necessariamente jurídico. Aliados como Flávio Bolsonaro e Damares Alves têm usado as acusações para tentar suspender o julgamento no STF, alegando que o processo estaria “contaminado” por irregularidades. A audiência no Senado, estrategicamente marcada no mesmo dia do início do julgamento de Bolsonaro, foi uma clara tentativa de criar um contranarrativa e mobilizar a base bolsonarista. Contudo, o STF, sob a relatoria de Moraes, já rejeitou tentativas de Tagliaferro de afastar o ministro do caso, e a corte tem se mostrado firme em manter o curso das investigações. A falta de provas concretas e a ausência de aliados de peso no Judiciário dificultam a conversão das denúncias em resultados práticos para o ex-presidente.
Além disso, a estratégia de internacionalizar o caso pode ter efeitos limitados. As sanções dos EUA contra Moraes, embora simbólicas, não alteram diretamente o andamento do processo no Brasil, e o pedido de extradição de Tagliaferro feito por Moraes ao governo italiano indica que ele enfrenta pressões significativas. A narrativa bolsonarista, que pinta Tagliaferro como um delator de abusos do STF, encontra eco entre os apoiadores, mas carece de respaldo em instâncias jurídicas internacionais, que tendem a respeitar a soberania brasileira em questões judiciais internas.
Em resumo, as denúncias de Tagliaferro alimentam o discurso bolsonarista de vitimização e ajudam a manter a mobilização política da base do ex-presidente, mas é improvável que tenham impacto significativo no julgamento do STF. A credibilidade abalada de Tagliaferro, as respostas institucionais de Moraes e a solidez do processo contra Bolsonaro sugerem que, por enquanto, as acusações servem mais como munição retórica do que como uma ferramenta capaz de reverter o cenário jurídico. Para Bolsonaro, o apoio de Tagliaferro é um reforço na guerra de narrativas, mas o xeque-mate ainda parece distante.



