Embaixada dos EUA volta a falar de sanções a Moraes em meio a julgamento vai sa…ver mais

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, cuja atuação como relator em processos sensíveis envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro tem atraído não apenas críticas internas, mas também intervenções diretas da diplomacia americana. Recentemente, em meio ao julgamento no STF que pode selar o destino político de Bolsonaro, acusado de orquestrar uma tentativa de golpe após as eleições de 2022, a Embaixada dos EUA em Brasília voltou a se manifestar de forma incisiva, reacendendo o debate sobre sanções e o uso de instrumentos de poder para influenciar decisões judiciais estrangeiras.
Tudo começou com uma série de medidas impostas pelo governo de Donald Trump, que vê em Moraes um obstáculo à liberdade de expressão e aos interesses americanos. Em julho de 2025, o Departamento do Tesouro dos EUA anunciou sanções contra o ministro sob a Lei Global Magnitsky, uma legislação que pune violações graves de direitos humanos e corrupção. As acusações são pesadas: Moraes seria responsável por detenções arbitrárias, censura a críticos políticos e ordens secretas para que plataformas digitais, incluindo empresas americanas como redes sociais, banissem contas de opositores. Essas ações, segundo os EUA, configuram uma “caça às bruxas” contra Bolsonaro e seus aliados, violando princípios fundamentais como o direito à expressão livre, que ecoa a Primeira Emenda da Constituição americana. Como consequência imediata, qualquer bem de Moraes nos Estados Unidos foi congelado, e ele, junto com familiares e supostos aliados, teve vistos revogados. Trump, em um gesto que misturava retórica e ação concreta, assinou uma ordem executiva impondo tarifas de 50% sobre importações brasileiras, argumentando que o Brasil estava ameaçando a segurança nacional e econômica dos EUA ao perseguir seu aliado ideológico.
A Embaixada em Brasília, comandada interinamente pelo encarregado de negócios Gabriel Escobar, não poupou palavras. Em postagens nas redes sociais e comunicados oficiais, a representação diplomática descreveu Moraes como o “principal arquiteto da censura e perseguição” contra Bolsonaro, alertando que aliados do ministro no Judiciário e em outras esferas seriam monitorados de perto. “Estamos avisados para não apoiar nem facilitar a conduta de Moraes”, dizia uma mensagem recente, traduzida para o português e amplamente divulgada. Em agosto, a embaixada foi ainda mais longe, classificando o ministro como “tóxico” para qualquer empresa ou indivíduo que busque fazer negócios com os EUA. Cidadãos americanos foram proibidos de manter relações comerciais com ele, e estrangeiros foram aconselhados a agir com cautela, sob risco de sanções secundárias. Essa retórica ganhou um tom ainda mais ameaçador quando o Tesouro americano começou a questionar bancos brasileiros sobre o cumprimento das sanções, o que gerou uma resposta furiosa de Moraes: ele ameaçou punir instituições financeiras que obedecessem a ordens estrangeiras sem aval da Justiça brasileira.
Agora, com o julgamento de Bolsonaro em pleno andamento no STF, a embaixada republicou mensagens prometendo “medidas cabíveis” contra aqueles que minam liberdades fundamentais. O timing não poderia ser mais provocativo. Enquanto Moraes lê seu relatório no plenário, destacando conexões de Bolsonaro com ações golpistas, uso de recursos públicos para monitorar opositores e ataques ao Judiciário, os EUA enviam um recado claro: o compromisso com a independência do Brasil em 7 de setembro, data da Independência, serve como lembrete de que Washington apoiará o “povo brasileiro que busca preservar valores de liberdade e justiça”. Para Moraes e seus “abusos de autoridade”, as sanções continuarão. Essa intervenção divide opiniões: para alguns, é uma defesa legítima da democracia e dos direitos humanos, especialmente considerando as ordens de Moraes para suspender contas em plataformas americanas e deter jornalistas por críticas. Para outros, representa uma interferência inaceitável na soberania brasileira, uma tentativa de um governo estrangeiro de ditar o curso da Justiça nacional.
O governo Lula, por sua vez, reage com firmeza, mas com cautela. O presidente classificou as sanções como “bullying” e defendeu a independência do Judiciário, enquanto o Itamaraty impôs sigilo a telegramas e correspondências sobre o tema, classificando-os como secretos por até 15 anos. Uma decisão recente do ministro Flávio Dino reforçou que leis estrangeiras não se aplicam automaticamente no Brasil sem validação judicial, uma blindagem interpretada como proteção a Moraes. No entanto, a pressão americana persiste, com o Departamento de Estado questionando se “líderes eleitos do Brasil agirão de forma decisiva” contra o que chamam de “padrão preocupante de abuso judicial”. Trump, fiel ao seu estilo, usa o caso para mobilizar sua base, ecoando narrativas de perseguição política semelhantes às que ele mesmo enfrentou nos EUA.
Essa escalada não é isolada. Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente e agora atuando nos EUA, tem sido peça-chave no lobby por sanções, articulando com congressistas republicanos e o círculo de Trump. Figuras como o secretário de Estado Marco Rubio e o subsecretário Darren Beattie publicaram críticas diretas, chamando Moraes de “coração pulsante do complexo de perseguição”. A resposta de Moraes tem sido de confronto: em eventos públicos, ele nega interferências e acusa “traidores brasileiros” de conspirar com potências estrangeiras para sabotar a democracia. O ministro, conhecido por sua postura combativa, inclusive praticante de muay thai, vê nas sanções uma trama “covarde e imoral” para obstruir a Justiça.
As implicações vão além do caso Bolsonaro. Economicamente, as tarifas de 50% afetam exportações brasileiras como soja, carne e aço, podendo custar bilhões e agravar a inflação interna. Diplomáticamente, o episódio marca um ponto de ruptura: o Brasil, historicamente aliado dos EUA em questões hemisféricas, agora enfrenta uma administração Trump que prioriza afinidades ideológicas sobre laços institucionais. Críticos apontam hipocrisia – os EUA sancionam seletivamente, ignorando violações em aliados como Israel –, mas defensores argumentam que a liberdade de expressão transcende fronteiras, especialmente quando afeta empresas americanas.
Enquanto o STF prossegue com o julgamento, que pode resultar em condenação de até 43 anos para Bolsonaro, o mundo assiste a um embate que mistura Justiça, poder e geopolítica. A embaixada americana, com suas promessas de mais sanções, sinaliza que a pressão não arrefecerá. Para o Brasil, o dilema é claro: ceder à interferência externa arriscaria a soberania; resistir, pode custar caro em termos econômicos e diplomáticos. Moraes, sancionado mas inabalável, personifica essa encruzilhada, onde o peso de decisões judiciais colide com o poderio de uma superpotência. O desfecho desse confronto definirá não só o futuro de um ex-presidente, mas o contorno das relações bilaterais por anos a fio.



